
ULTRAMARATONA
CORROTODODIA 2007
SUPERAÇÃO
A
Ultramaratona Corrotododia 2007 só pode ser definida
pela palavra SUPERAÇÃO. De
todos, atletas e organização.
No
final, o grande campeão Individual da prova de 24 horas
foi o Adão Miranda da Silva com a marca
de 197,600Km - 494 voltas na pista de 400m.
Os
atletas superaram o frio, a garoa, e todo o cansaço de
uma prova longa e, por si só, extremamente desgastante.
O
resultado geral da prova foi o seguinte:
Campeão
Geral 24 Horas Masculino: Adão Miranda da Silva - 197,600km
Campeã
Geral 24 Horas Feminino: Ana Maria Levada - 151,200km
Campeão
Geral 12 Horas: Paulo Nogueira Starzynski - 100,400Km
Campeão
Geral 6 Horas: Epifânio Maciel de Andrade - 70,800km
Campeã
Geral 6 Horas: Marineide Alves de Araujo - 59,200km
Equipe
Campeã Revezamento Masculino: Equipe UNICENP - com Maurício,
Paulo, Paulo César, Fábio - 262,800km
Equipe
Campeã Revezamento Feminino: Feliz...idade - Maristela/Merle/Solange/Deise
- 172,800Km
A
Corrotododia pede aos atletas que possuam fotos da cerimônia
de premiação, que enviem-nos para que possamos
deixar o nosso site de uma forma bastante adequada.
“Há
momentos agitados, decisivos, em que a boa intenção
não basta. É quando a vida nos cobra coragem,
arrojo, criatividade, e um inabalável espírito
de luta. A verdade é que os problemas e os reveses ocorrem
com maior freqüência do que gostamos. Os tempos mudam,
surgem desafios e novos objetivos. Os guerreiros olham no olho
do futuro, sem medo e sem arrogância, mas com a confiança
de quem está pronto para o combate”.

Campeões 6 horas, 24 horas e 12 horas - Epifânio,
Adão e Paulo
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Podium Feminino 24 horas: Ana a campeã, com Tomiko em
segundo e Elisete em terceiro

Pódium 24 horas: Campeão Adão, Luciano
em Segundo, Emerson em terceiro, Paulo em quarto e Claudemir
em quinto.

Pódium de 6 horas - Epifânio, Jair
e Fábio


O campeão da Ultramaratona - Adão Miranda da Silva
RELATO – PAULO NOGUEIRA STARZYNSKI - CAMPEÃO DE
12 HORAS DA ULTRAMARATONA CORROTODODIA –
A idéia
de participar de uma ultramaratona de 12 horas sempre me pareceu
meio absurda, mesmo após ter me decidido por Curitiba
e depois de algum tempo me inscrito na prova.
Essa sim seria diferente...
A prova de 6 horas disputada em São Caetano foi um tremendo
desafio, mas estava mais próxima de minha experiências
anteriores. Não poderia ser tão mais difícil
que fazer Rio Grande, uma ultra de 4:30:00 praticamente sem
andar nada. Mas essa nova prova de 12 horas seria algo totalmente
novo para mim!
A toda complicação
própria da prova estava aliado a minha falta de tempo
para treinar. Os últimos longos de verdade haviam sido
para Rio Grande e depois disso a inclusão de bons períodos
de caminhada como ajuda para as 6 horas. Meu volume semanal
estava baixíssimo e o desgaste do combinado 6 horas/Volta
a Ilha me deixava meio preocupado com o quanto eu poderia exigir
em treinos até o dia 20/05. Os aliados eram a alimentação,
que procurei manter em dia durante o período de treino
e o fato de estar bastante descançado, uma vez que não
conseguia correr como gostaria.
Conforme o dia da prova
se aproximava eu tinha cada vez mais certeza que seria muito
complicado passar de 100Km... não me parecia possível
atingir uma distância dessa magnitude com tanta displicência
nos treinos. Mas botei na cabeça que havia uma chance
e me agarrei às palavras do Éber, que é
brasileiro e não desiste nunca! rs Se eu fosse para Curitiba
achando que não dava, já estaria morto antes da
largada...
A semana da prova chegou.
Hora de descanço total (mais ainda) e dos últimos
preparativos.
Na sexta-feira passei na casa da Pam, almoçamos uma macarronada
e antes das 14:00 já estávamos na estrada. A viagem
foi meio complicada por causa da chuva e da estrada, péssima
na parte do Paraná, mas deu tudo certo e lá pelas
19:00 já estávamos no hotel.
Fomos jantar e dar uma olhada na cara de Curitiba. Pelo menos
isso, pois não haveria tempo de conhecer nada.
No dia seguinte fomos à Unicenp, local da prova, retirar
os kits e assistir a largada do pessoal das 24 horas! De conhecido
mesmo estava só o Adão, amigo do Éber.
Fui apresentado ao Márcio Villar, Manoel Mendes, o simples
e carismático Mozart (organizador da prova) e o Júlio
Latini (que alguns conhecem por Bond) que nos recebeu muito
bem, ajudou durante todo o tempo e foi uma figura excepcional!!
A ele devo muitos agradecimentos, principalmente por nos ajudar
a desmontar a tenda e guardar as coisas no carro ao final da
prova, quando nem eu ou a Pam tínhamos condições
para isso.
Antes da largada já estávamos com a tenda NT montada
ao lado da do Júlio, a barraca posicionada ao fundo e
tudo nos conformes para quando chegasse nosso momento.
Em meio ao frio devastador
e um vento gelado, cortante, partiram os inacreditáveis
ultras que fariam as 24 horas de prova.
Assistimos um pouco da prova e voltamos para o conforto do hotel.
Almoçamos um pouco mais cedo e descansamos bastante durante
a tarde. Também compramos dois pares de tênis Nike
que estavam em promoção no centro de Curitiba.
Era inevitável não pensar na largada que se aproximava
e também naqueles que estavam a várias horas desafiando
a distância e o frio. Conversamos bastante sobre as táticas
de prova.
Eu, pretendia montar uns 12 “blocos” de corrida/caminhada.
Correndo entre 40/45min e caminhando o restante até interar
1h. Isso num ritmo que deveria variar entre 5:40 e 6:00 min/km.
Não sabia se poderia sustentar tudo isso, mas estava
disposto a tentar...
A Pam sentia a ansiedade da estréia (não somente
nas ultras, mas nas corridas!) e também bolava as táticas
que adotaria... seria importante incluir corridas para amenizar
o desgaste pela repetição dos movimentos de caminhada.
Sendo assim, ela decidiu correr 7min dentro de cada bloco de
meia hora, ou algo próximo disso.
Ficamos um bom tempo discutindo e opinando nos planos um do
outro e imaginando o que estava por vir... a torcida maior,
aquela que parecia impossível de se realizar, era por
uma prova seca. Podia estar frio, mas tinha que estar seco!!
Lá pelas 19:30 deixamos
o hotel e fomos comer alguma coisa antes de seguir rumo à
Unicenp. Passamos no shopping e comemos um lanche da Subway,
bem calórico!
Entramos na universidade
e buscamos uma vaga para o carro. Estacionamos bem em frente
à pista e já dava para ver o pessoal que continuava
rodando, trotando, caminhando. Pegamos o isopor, que naquele
frio polar sequer enchemos de gelo e carregamos tudo para a
tenda NT. Mais um pouco e chegaria a hora da largada.
Foi apenas faltando 15min para o início que tomei coragem,
troquei a calça pelo shorts, tirei o agasalho e coloquei
uma camiseta de manga comprida com outra de manga curta, da
NT, por cima. Prendí o número e o chip, mesmo
sabendo que ele seria inútil; pouco depois da largada
o sistema de marcação eletrônica das voltas
deu pane total e os técnicos contratados não conseguiram
resolver o problema, deixando o pessoal da organização
na mão. Muitos corredores estavam irritados alegando
a perda de voltas e nisso lhes dou toda a razão. Enquanto
a empresa de cronometragem deve ser levada à justiça,
a equipe do Mozart merece os parabéns pois desde o momento
da falha, até as 10 da manhã do dia seguinte,
marcou na mão, volta por volta de todos os atletas. Houveram
erros, voltas não computadas, mas o erro é humano...
impossível não perder algumas passagens dentre
tantos atletas e tantas voltas.
Antes da largada eu já
recebera a notícia de que o Luciano Prado não
participaria pois tinha feito uma cirurgia na semana anterior.
Beleza. Largariam apenas três e eu já tinha troféu
garantido, bastava se concentrar nos 100Km.
O Mozart passou algumas instruções, destacou alguns
pontos do regulamento e quando o relógio oficial da prova
apontava que faltavam apenas 12 horas para o término
do evento, ao som da buzina, largamos eu, Gerson e Raul.
Eu estava meio amedrontado
só de pensar na prova e por isso foi bastante fácil
não se empolgar e sair rápido demais. Corria no
ritmo planejado, no limite mais rápido. Em pouco tempo
o Gerson já havia me dado uma volta e mantinha um ritmo
bem forte. Eu sabia que ele poderia ser rápido e resistente
pois nas 6 horas de São Caetano havia acumulado mais
de 70Km e terminado muito bem colocado no geral. Por enquanto
eu não seria adversário para ele e a única
chance de terminar na sua dianteira era fazer o melhor para
maximizar a minha distância, torcendo para ele estar fazendo
bobagem. O Raul estava num ritmo pouco superior ao meu, mas
eu imaginava que ele não poderia se manter assim... inicialmente
inscrito para as 6 horas ele migrou para as 12 só para
liberar a vaga a um amigo se inscrever na prova menor. Seria
sua estréia em ultras e assim, de olho, não achava
que ele poderia se manter a 5:30 o tempo todo. Uma vez avaliado
o potencial dos “adversário” procurei esquecê-los
e fazer a minha prova...
Pela primeira vez pensei que seria muito chato correr durante
o tempo todo num esquema tão repetitivo.
Rapidamente a primeira perna de corrida acabou, com 45min a
um ritmo médio de 5:42min/km. Era preciso caminhar rápido
e enfrentar o frio e a camiseta de baixo que aos poucos ia molhando
de suor e ficando gelada. Com a temperatura baixa quase não
transpirávamos mas de vez em quando caia um garoazinha
bem rápida.
A segunda perna de corrida foi também tranqüila,
e eu seguia tomando voltas, principalmente do Gerson. A essa
altura já estávamos amigos, quando passava eu
falava alguma coisa brincando, ele respondia na boa e tudo ia
na esportiva.
Na terceira perna o Raul correu boa parte na minha mira e já
ameaçava adotar um ritmo mais lento. Foi engraçado
porque eu ia na mesma balada e quando encostava ele aumentava
para ganhar um metros de vantagem... isso por várias
vezes. Achei que realmente ele nunca deveria ter feito prova
em pista, porque essa tática não tem muito a ver...
Só de brincadeira, pois sabia que ia diminuir para pegar
uma bebida com a Pam no final da volta, dei um sprint por 200m
para ver se ele ia junto. Ele acompanhou, ficou ofegante e depois
desistiu de sua tática doida, perdendo a vantagem e levando
voltas... mas melhor para ele, que faria sua corrida no seu
ritmo.
A quarta perna foi a mais
difícil da prova, por incrível que pareça.
Voltei a correr e o ritmo não encaixava... parecia muito
difícil manter-se constante, mesmo próximo de
6:00min/km. Pensei que logo o corpo aqueceria e tudo voltaria
ao normal ,mas não... literalmente me arrastava na pista
e o desânimo tomava conta. Como seria possível
rodar mais 8 horas naquele estado? As duras penas fiquei dentro
do ritmo previsto e também foi com dificuldade que relutei
em desistir dos 100Km.
Quando voltei a caminhar fiz a única coisa que poderia
me salvar na prova... comi e bebi. Talvez a alimentação
até alí tivesse sido insuficiente... Comi um lanche
da Subway quase que inteiro, tomei isotônico e um gel.
Voltei a correr e o primeiro medo não se concretizou;
o estômago aceitou bem a refeição e não
reclamava durante a corrida. Essa quinta perna foi ainda um
pouco dura, mas em compensação e comprovando minhas
teorias alimentícias, a sexta perna foi melhor a sétima
ainda mais! Era incrível como eu havia voltado aos níveis
inicias de performance depois de quase abandonar meus objetivos.
Daí em diante tomei muito cuidado com a alimentação
e hidratação... Acho que pelo fato do clima estar
muito frio acabei esquecendo essa preciosa parte; bebi de menos
e comi de menos. Daí em diante não repetiria mais
esse erro.
A sétima hora me chamou atenção para uma
parte da prova da qual eu estava desligado: a competição!
Como a cronometragem por chip não funcionava e a marcação
manual não permitia a publicação de parciais
confiáveis não sabia exatamente quantos quilômetros
estava atrás do Gerson, mas comecei a perceber que aos
poucos o saldo ia ficando positivo. Para cada uma volta que
tomava, tirava duas.
Entrando na oitava hora de prova me sentia totalmente estabilizado
quanto ao ritmo, alimentação, hidratação
e nível de stress. Parecia possível ficar muitas
horas naquele esquema. A dor sempre presente fazia com que fosse
até possível esquecê-la, conviver com ela,
correr com ela, lado a lado. Quem quase sempre me passava na
parte da caminhada era a Pam, que se mantinha sempre abaixo
de 4min por volta e quando corria ia bastante rápido.
Eu até pensei que ela pudesse estar correndo rápido
demais, mas agüentou firme. O Paulo Motta também
caminhava muito forte e tentei acompanhá-lo em alguns
momentos (na verdade ele que diminuía para ir comigo)
e até que conversamos bastante. Ele havia largado para
rodar 120km mas sentindo que estava bem elevou audaciosamente
sua meta para 150km; conquistou com galhardia cada um dos metros
no final da prova, quando a maioria estava parada. Quanto ao
Gérson, foi a partir daí que começou a
despencar... se não me engano, durante essa parte da
corrida ele teve que parar uns 20min para massagem. Só
soube disso depois, mas certamente sua vantagem caiu bastante
por causa disso. Não dava para saber quantos quilômetros
já tínhamos corrido pois as parciais saiam com
muito atraso, informando passagens de mais de 2 horas atrás.
Como percebi estar ganhando terreno fiquei mais motivado em
vencer a prova, e coisa que parecia impossível antes
começou até mesmo a ficar mais provável.
Realmente o Gerson estava sofrendo mais com a prova nesse momento
e estava praticamente sem apoio, sozinho por lá... em
um momento, quando comia um gel, ele passou por mim recolocando
uma volta e pediu o final do meu sachê. Disse que já
havia acabado mas que ele podia pegar um inteiro lá na
tenda. Meio sem jeito ele negou e por isso quando passei na
tenda dei uma entrada e guardei o gel no bolso do shorts. Alguns
minutos depois quando ele passou novamente entreguei. Competição
a parte, éramos dois contra uma prova duríssimo,
enorme; cada qual com suas metas e gostaria que ambos as realizassem.
A nona hora foi o começo do sofrimento final. Já
não me sentia tão cheio de energia e sabia que
dessa vez não haveria volta; nenhum lanche milagroso
ou bebida açucarada faria com quem eu corresse mais facilmente.
Era aceitar o corpo e encarar as coisas do jeito que estavam.
Ainda dava para manter o ritmo mas optei por estender a caminhada
um pouco além, andando sempre de 20 a 25min em cada perna.
Nesse momento quase todos os corredores das 24 horas caminhavam
e as vezes a pista ficava até mesmo vazia. Essa foi a
hora da prova em que a chuva apareceu... mesmo leve, era congelante.
A Pam até pegou a capa de chuva para a caminhada, mas
logo desistiu da idéia. Alguns minutos depois e o que
restara da água era apenas uma garoa bem fina.
Conforme transcorria a décima hora de prova, ia ficando
bem complicado correr. O corpo demorava mais de 15min para engrenar
a cada retorno da caminhada e a dor intensificava-se; nada localizado,
era totalmente diferente das outras provas mais rápidas...
não doía uma parte específica, o que havia
era uma sensação generalizada de esgotamento.
Mas ao mesmo tempo essa sensação era mais fácil
de se lidar do que uma dor aguda e pontual. A cabeça
ajudava a seguir adiante e pensar que faltavam menos de 2 horas
era um combustível e tanto! Nesse momento também
tive a quase certeza de que chegaria na frente do Gerson pois
ele praticamente só andava e cheguei a perder a conta
de quantas vezes passei por ele. Não sabia quanto tinha
corrido, mas imaginava algo em torno de 97/98 km. Na verdade
eu estava errado, mas sem as parciais ficava difícil
precisar.
Com os 100Km quase garantidos, pelo menos era o que eu achava,
e a 1a colocação no bolso, fiquei muito tentado
em praticamente só andar na última hora. Meio
que desisti porque tive medo de não passar dos 100 e
também porque era ainda mais difícil caminhar
do que correr. Não consigo entender o porque, mas no
final caminhar só piorava as coisas... doía muito
toda a musculatura posterior da perna. Na corrida ficava mais
fácil desempenhar, embora não muito.
As duras penas iniciei a derradeira perna de corrida. Queria
terminar correndo e para isso tinha de aguentar mais 30min sem
parar... de repente bateu um medo de ainda não ter superado
a grande meta final, os 100Km. Estava impossível manter
um ritmo constante e acho que a média da corrida foi
de 6:05min/km mais ou menos, chegando ao teto de 6:20min/km
em algumas voltas. Nunca foi tão difícil correr
tão devagar!!
Faltando muito pouco a Pam disse que terminaria correndo comigo.
Não seria difícil pra ela acompanhar o meu rastejar
dos últimos 5 min.
Quando passei por ela, começou a trotar ao meu lado.
O clima já era de festa total. Cheguei a pegar um balão
comemorativo com o Mozart, que ele distribuía a todos
no tapete do chip, mas deixei com o Bond; ainda precisava correr,
não sabia quantos quilômetros havia acumulado até
então. Não podia deixar chance dos 100Km escaparem...
e se escapassem, eu teria feito o meu melhor até o último
minuto.
Abrimos juntos a penúltima volta! Uma sensação
incrível! Não havia mais dor nem frio...
Cruzamos novamente o tapete com o relógio marcando pouco
menos de 2min e abrimos a última volta! Logo ia terminar
a prova mais incrível de minha vida. Pensei que não
era verdade, não podia ter feito tudo aquilo... mas estava
fazendo... pensei que jamais começaria a prova novamente,
se soubesse o que seria desde o início. Mas isso tudo
logo passa, sempre dizemos essas coisas depois de uma maratona,
certo? Fizemos a curva um, no sentido horário, pegamos
a reta oposta ao tapete de chip... faltavam alguns segundos
apenas... pouco antes de entrarmos na curva dois o tempo se
esgotou! Tinha acabado! A organização orientou
os atletas a completarem as voltas que tinham aberto... para
nós, foi só mais um trote de 100m.
Sensacional!! Nítido o sentimento de comoção
que tomava conta de muitos por alí! Nós dois estávamos
em êxtase... era inacreditável. Não havíamos
parado, durante toda uma madrugada!
Os outros corredores iam
completando suas voltas e aglomerando-se junto ao pórtico.
O Mozart cumprimentava um a um. Com muita satisfação
apertei sua mão e dei-lhe um abraço. Grande prova
de uma grande pessoa; ele e toda sua família estão
de parabéns. Para os padrões Corpore, Yescom,
foi uma prova minúscula... mas uma Ultramaratona é
sempre grandiosa, em todos os sentidos. Não estão
de parabéns apenas os que completam, mas os que tem coragem
de largar, que tem coragem de desistir e de organizar, a despeito
de todos os imprevistos, um evento desse porte.
Cumprimentei o Paulo Motta, visivelmente emocionado. Acho que
todos nós sabemos quem ele é, e como ele corre.
Seu resultado? 152Km! Superando seu objetivo e primeiro lugar
numa das categorias mais disputadas da prova. Paulo, meus sinceros
parabéns!!!
Eu e a Pam estávamos
esgotados, mas havia muito energia para sorrir e impressionar-se
com o resultado um do outro. Para mim, ela superou todas as
expectativas... 39Km em 6 horas, basicamente caminhando e sem
nenhuma pausa! Um dia eu chego lá... aliás, não
entro em uma 24 horas antes de poder fazer o que ela fez em
Curitiba! Esse tipo de resistência é fundamental
para um bom desempenho em qualquer ultramaratona em pista, que
o diga o Paulo Motta, que como ela é um excelente caminhante!
O pessoal se agrupava para
a premiação.
Sabia que tinha sido o primeiro, mas não sabia a quilometragem....
lembrei de quando abrimos a última volta faltando menos
de 2 minutos. Que volta seria aquela? O frio na barriga pela
espera da distância final...
No momento da premiação das 12 horas o Mozart
anuncia que, Paulo Nogueira Starzynski era o primeiro colocado,
com 100 quilômetros e 400 metros!!!! POR UMA... AQUELA
ÚLTIMA... o prêmio por todos os segundos de esforço
durante toda a noite. Bastava ter parado 1min, ter feito um
pequeno alongamento, caminhado um pouco mais, e terminaria com
99 e alguma coisa... feliz mas (quase) derrotado por mim mesmo.
Nada disso aconteceu! Muito mais que o primeiro lugar, atingir
esse objetivo foi o maior prêmio.
CEM. CEM QUILÔMETROS!
Não conheço palavras para descrever o que senti
nesse momento e depois recebendo o troféu de campeão
geral, ao lado do Adão e do Epifânio, vencedor
das 6 Horas. Também não conheço palavras
para expressar o orgulho que senti quando ví a Pamela
erguendo o troféu das 6 Horas! Feliz por ela e pelo despertar
da vontade de superação no esporte que tanto gosto.O
resto é história.
Com a ajuda do Bond, guardamos as coisas no carro e voltamos
para o hotel. Saímos só para almoçar e
depois foi a hora de hibernar até o dia seguinte para
encarar a estrada vazia e tranqüila, de volta à
Sampa.
A todos que ficaram na
torcida, mandaram emails e acompanharam os treinos, um muito
obrigado!
Ao pessoal da NT, vocês sabem que não existem palavras
que os definam perfeitamente, a força e energia que vem
de todos é diferente de qualquer coisa que conheça
no mundo das corridas.
E finalmente a Pam, mais que um obrigado pela companhia, um
PARABÉNS pelo excepcional resultado! Você promete,
e sabe disso! Continue, sempre!
Valeu!
Paulo.
RELATO
DO PAULO MOTTA OLIVEIRA
24 horas depois...
Paulo Motta Oliveira
Tudo
começou na volta da Pampulha, em 2001. Depois de uns
três meses do que eu considerei um treino duro (!), fiz
os quase dezoito quilômetros da prova em 2h e 20 minutos.
Desde então, não consegui melhorar meu ritmo de
forma significativa: continuo achando inacreditável que
consigam fazer maratonas abaixo das 4 horas. Dez quilômetros
abaixo dos 50 minutos, então,acho tarefa para pessoas
com superpoderes.
Em compensação, ao menos tenho alguma resistência:
nesses quase seis anos de corredor já completei 24 maratonas,
e por duas vezes consegui correr duas maratonas em fins de semanas
seguidos (em 2002 as minhas duas primeiras, Verona e Viena,
e em 2005 as de Paris e Gold Marathon em Lisboa). Já
fiz quatro vezes a Praias & Trilhas (uma delas com direito
ao troféu “Demorei, mas cheguei”, dado ao
último a chegar, o que foi, até o último
fim de semana, o único troféu de minha carreira)
e três vezes a Supermaratona de Rio Grande.
No ano passado, resolvido a me aventurar um pouco mais, corri,
em maio, as 12 horas de São Caetano (84 km) como treino
para os meus primeiros 100 km em julho (27e Nacht van Vlaanderen,
na Bégica) completados em quase 13 horas (que era, por
sinal, o tempo limite). E para fechar o ano, quatro provas em
dois meses: a Praia & Trilhas (fui o penúltimo),
a maratona quase-noturna de Blumenau, e, como fui dar aulas
na França, pude correr a minha mais longa maratona (a
de Beaujolais Nouveau, com direito a muitas taças de
vinho em todos os postos de abastecimento, e eram 9!) e, por
fim, a Saintélyon, uma prova noturna de 68 km, feita
por trilhas e estradas. Duas ultras e duas maratonas em seis
semanas. Tudo muito devagar. E muito divertido.
Com este currículo estava pensando neste ano repetir
a experiência de fazer duas maratonas em semanas seguintes:
Porto Alegre e São Paulo. Já tinha até
programado um pacote para a primeira quando descobri que iria
se realizar uma prova de 24 horas. Era meu sonho. Não
tive dúvida: mudei de planos, e junto com uma amiga que
também iria correr Porto Alegre, Tomiko, começamos
um treino para este novo desafio. Com a orientação
dos treinadores de minha equipe, a 100 limites, foi montada
uma planilha assassina: muita corrida e caminhada, com sessões,
no auge do treinamento, de 6 a 7 horas, mais de 150 km por semana.
E começamos a fazer coisas completamente alucinadas,
como levantar às 3:30 para sair de casa às 4:20
e ir correndo até o Ibirapuera, onde ficávamos
mais umas cinco horas, e depois voltávamos correndo para
casa. Em um sábado chegamos na USP às 5:00 e ficamos
correndo até às 11:30. Sempre começava
caminhando, depois passava um tempo marchando, e só no
final corria.
As provas do período foram utilizadas como treino: as
duas meias que ocorreram em São Paulo (na da Corpore
eu fui e voltei da USP correndo, no total seis horas de treino),
alguns 10 km e, na semana anterior à grande prova, a
imperdível meia maratona noturna de extrema, em que a
Tomiko ainda conseguiu chegar em quarto lugar entre as mulheres.
Eu, preocupado em não me acidentar nas trilhas, usei
todas as seis horas a que tinha direito, sendo o último
dentro do tempo limite.
E chegou o fim de semana do dia 19. Pegamos um vôo na
sexta em São Paulo e no sábado fomos para a pista.
Uns amigos haviam nos emprestado uma barraca, e o Yuji, filho
da Tomiko, foi para nos dar apoio. Eu sabia muito bem o que
queria: dividir a corrida em quatro blocos de cinco horas, seguidos
cada um de uma hora de descanso, completando, no total, 120
km. Se não estivesse muito destruído pensava em,
talvez, parar um tempo menor ou continuar correndo. A regra
de ouro (eu aprendi) era começar cada um dos blocos muito
devagar: fazer 400 m em torno de 4 minutos.
E a prova começou, às 10 horas da manhã.
Na frente da barraca, alguns saches de gel, um litro de caldo
de cana (eu tinha mais um congelado), e outros apetrechos. Rapidamente
me transformei no último da prova. Não tinha problema.
Eu sabia que esta situação não ia durar
para sempre. Depois de umas duas horas em que mesclei caminhada
e marcha, comecei a correr devagar. E fui em frente. Como os
loucos não são muitos, conhecia a maior parte
dos corredores, e sempre era possível conversar com um
ou com outro. E as horas foram passando, sem grande cansaço,
e bem divertidas. Com 5h e 15 minutos completei as minhas primeiras
100 voltas. “Estou inteiro, não preciso parar”.
E não parei, só comecei tudo de novo, e voltei
a caminhar, depois a marchar, e por fim a correr, E assim se
passaram outras 5 horas e 30, e completei outras 100 voltas.
Foi aí que decidi: 120 é pouco, vou tentar completar
150 km. Ainda faltavam mais de 13 horas, e eu teria de fazer
só mais 180 voltas! Por que não?
Ao chegarem as 12 horas eu completei os mesmos 84 km de São
Caetano. Maravilha, pensei. Só que uma hora depois o
cansaço estava batendo forte, muito forte. O meu ritmo
foi caindo vertiginosamente: começou a ser difícil
completar a volta em 4 minutos e meio. Não dá
mais, eu pensei, ou descanso ou não vai dar certo. Já
achando impossível atingir a nova meta, fui deitar um
pouco antes das duas da manhã, e pedi para a Tomiko me
acordar às 3. Nem precisou, pois levantei sozinho. Miraculoso
descanso. Está certo, assim que saí da barraca
achei que seria impossível caminhar. Tudo estava travado.
Mas umas duas voltas depois, já um pouco aquecido, tudo
mudou. E foram, para mim, as melhores sete horas da prova. Sentindo-me
inteiro, e intercalando caminhada forte com corrida, fui fazendo
voltas e mais voltas. Comecei a passar as pessoas, ou a correr
junto daqueles que considerava imbatíveis. Quando consegui
correr quase duas voltas com o Adão (como ele consegue
correr daquele jeito por tanto tempo?) e depois ainda ultrapassá-lo
percebi que realmente estava bem. A estratégia fora correta:
tinha me poupado, podia agora, administrando corretamente, ir
até o fim da prova sem grandes dificuldades. E fui, ora
conversando com um, ora com outro, várias vezes conversando
com o Paulo que entre caminhada e corrida ia cumprindo o seu
objetivo de fazer 100 km em 12 horas. Chorei algumas vezes,
eu não acreditava no que estava acontecendo. Quando completei
as 375 voltas, explodi. Eu tinha feito 150 km! Passei a contar
para alguns, quando passava por eles, feito bobo: já
fiz os 150! Faltavam alguns parcos minutos, mas ainda consegui
dar mais sete voltas. Foi o máximo. E a prova terminou.
Telefonei para minha esposa, eufórico. Subi para tomar
banho, e fui para a premiação. Eu sei como sou,
sei que a minha categoria é difícil e não
espera ganhar nenhum troféu. Mas não importava.
Tinha feito bem mais do que esperava, e isto já bastava.
O treino e a tática tinham funcionado, a cabeça
comandara o corpo, e apesar de muito cansado eu estava com poucas
dores. Poderia estar melhor? Poderia, descobri pouco depois.
Vi a premiação, vários pódios, entre
eles o das mulheres, com a Tomiko em segundo lugar. E chegou
a minha categoria, o Mozart chamou o primeiro classificado:
Paulo Motta Oliveira. “Eu? Não é possível?”
Levei um tempo para acreditar, e com olhos mareados subi. Eu
tinha sido o primeiro! Eu, que sempre corro lento, que não
consigo baixar meu tempo de maratona, que já fui algumas
vezes o último. Inacreditável.
Moral da história? Como depois escrevi para os meus amigos,
acho que mesmo um lento pangaré tem seus dias de glória,
ou que qualquer patinho feio descobre onde pode ser cisne. Acho
que achei minha prova. Pena que o treino seja tão duro.
Mas não tem problema. A felicidade depois compensa tudo.
Ano que vem, se tudo der certo, estarei de volta. As 24 horas
que me esperem...
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