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Poeira Quente na Marathon des Sables

A participação do Mozart na mais difícil ultramaratona do planeta.

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::Todas as Notícias da MDS 2005 - com os detalhes da preparação e parte da reportagem do Mozart na MDS

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DESERTO – DESAFIO EXTREMO E QUEBRA DE LIMITES

No mês de abril de 2005, participei da 20a Marathon dês Sables no deserto do Saara, no Marrocos.
A edição deste ano, por ser comemorativa, foi a mais longa e a mais difícil das vinte edições, desta que é considerada a “mais difícil ultramaratona do planeta”, com 247 km de percurso.



Saí de Curitiba no dia 5 de abril com destina a Madri, na Espanha, e de lá, com outros atletas, seguimos para Ouartzazate ao sul do Marrocos. O Marrocos é uma monarquia, aonde a principal religião é a muçulmana – cerca de 92% da população de 32 milhões de habitantes.
A cidade de Ouartzazate é particularmente turística e fica na “porta” do deserto do Saara.
No dia 8 pela manhã saímos para o deserto numa caravana de 10 ônibus (houve mais 3 caravanas) numa viagem de 470 km. Antes da partida tomei um banho, que seria o último até o nosso retorno à civilização, que ocorreu no dia 16 de abril.


Chegamos à tardinha e a organização nos colocou em tendas (jaimas). À noite a organização da prova nos serviu um delicioso jantar à francesa. Dormimos na tenda, sobre um tapete fino direto sobre o chão que era pura pedra...Beleza...


No dia 9 cumprimos as atividades administrativas, nas quais os 798 atletas, de 37 países, apresentaram os materiais obrigatórios (saco de dormir, faca, lanterna, alfinetes de pressão, pilhas, bússola, isqueiro, apito, espelho, manta térmica de alumínio), atestados médicos e eletrocardiogramas com prazo máximo de 30 dias, e a comprovação de que trazíamos mais de 2000 calorias por dia em alimentos para cada um dos 7 dias de competição.

A Marathon dês Sables é uma prova de auto-suficiência e os atletas precisam levar toda a comida para os 7 dias. A minha nutricionista Ana Paula elaborou uma dieta com uma média de 3.000 calorias por dia dividas basicamente em 3 refeições – manhã, tarde e noite – sendo que as refeições da tarde e da noite sempre eram quentes e sólidas. Tudo isto e mais umas roupas foram dentro de uma mochila que pesava, carregada, cerca de 9,45kg. A organização da prova forneceu 1,5 litro de água a cada 12km de corrida, e mais 4,5 litro no final de cada etapa. Ou seja, no primeiro dia de prova eu corri carregando quase 12 kg de peso nas “costas” (água e mochila).


Na noite do dia 9 serviram um magnífico jantar, novamente à francesa, e desta vez com muita areia – tivemos a primeira grande tempestade de areia, e que tempestade...
E durma-se com uma novidade destas...
No dia 10, às 9:30h começou o nosso desafio na Marathon dês Sables. Agora era por nossa conta.
A Marathon dês Sables é uma ultramaratona corrida em 6 etapas ao longo de 7 dias. É, por assim dizer, um rali, só que correndo a pé.
Corremos sempre de um acampamento para outro. Neste primeiro dias foram 29 km entre dunas, cascalho e subidas e descidas. A temperatura, que durante o dia sempre estava acima de 40o C baixava para próximo de 0 ºC de madrugada.
No segundo dia, foram 37,5 km de dunas fortes, muita subida, cascalhos e duas escaladas verdadeiras, sendo a segunda extremamente difícil. Cheguei “acabado” e com os dois dedões quebrados, e com as respectivas unhas soltas. Refeição dorme descansa e novo dia.


No terceiro dia, 41,5 km de dunas, subidas, montes, e muita areia e calor. As dunas de até uns 150 metros e a temperatura de uns 45 ºC, “moleza”.


No quarto dia, 76 km de dunas, subidas e descidas, e dunas, e cascalhos e pedras, muita pedra e muita areia (por toda parte, eheheheh...) A temperatura chegou neste dia a mais de 47 ºC medida a sombra, mas como os atletas não têm sombra, nos nossos termômetros ao sol chegava a 55 ºC, com uma umidade de apenas 7%. Terrível e muito difícil.
O último trecho desta etapa, do km 66 ao 76, percorri a noite. Uma pequena subida na montanha, e uma longa descida em dunas intermináveis, e por fim um trecho de pedra pura com areia. Não dava para correr, muito escuro e perigoso. Mesmo com o farolete de cabeça forte que eu usava. Por sorte terminei no mesmo dia, quase meia-noite, coisa que a maioria não conseguiu, tendo que correr madrugada adentro ou simplesmente dormir no deserto e completar o resto do percurso no dia seguinte.



O quinto dia foi de descanso para mim, mas muito ainda estavam na quarta etapa, e em meio a uma forte tempestade de areia.
A minhas refeições foram preparadas com comidas, na sua maioria, desidratadas/liofilizadas industriais que comprei aqui mesmo no Brasil. As refeições da tarde e da noite eram compostas por risotos, macarrão, pão integral, sucos, maltodextrina, compostos energéticos, biscoitos, castanhas, e até goiabada e balas de sobremesa.
No sexto dia corremos 42,2 km, o mesmo que uma maratona. Dunas fortes, areia, subidas em morros, descidas, leitos de rios, e calor, muito calor. Mas já passávamos próximo de povoados, vilas e cidades. As imagens que pude capturar na minha máquina digital foram belas e impressionantes.


Terminada esta etapa, faltavam apenas 20 km. Não dá para comemorar, pois ainda faltavam 20km e no deserto...
Um fato que vale a pena comentar foi a minha vontade diária acordado e até em sonhos, e que aumentava cada vez mais com os quilômetros percorridos, de comer frutas, geladas é claro (melancia e laranja), e beber um refrigerante, ou dois, ou três...Que vontade...


Os companheiros de "jaima" - Luiz, Mozart, Juan Antonio, Ramón, Suraya, Eduardo e Andrés


No sétimo dia, dia 16, corremos os 20 km finais e cruzamos a linha de chegada em Tazarine.Cheguei na 294a colocação e, é claro com direito a muito choro e alegria.
Meta cumprida e comprida, afinal foram 18 meses de planejamento, 18 meses de treinamento (nos últimos meses chegava a fazer mais de 200 km por semana de corrida em treinos no horário do almoço e a noite, e mais 2 a 3 horas de musculação nas segundas, quartas e sextas à noite, depois da corrida noturna, além de atender meus clientes da Mozart Consultoria).

18 meses de preparação e de sonhos.


De Tazarine seguimos de ônibus até Ouartzazate onde finalmente tomei um banho, acho que de uns 40 minutos. E comi uma refeição digna de um rei, do deserto é claro, (uns 4 pratos dos grandes...).
No dia 17 foi nosso dia livre; dia de conhecer a cidade, o povo, fazer compras, e para visitar bazares e é claro, comer...
Retornamos a Madrid e eu para o Brasil.


Estou escrevendo um livro contando todos os detalhes do planejamento a chegada, incluindo o meu diário da prova e fotos.
Preparei também uma palestra “Deserto – Desafio Extremo e Quebra de Limites”, que já está disponível.